Três clubes. Um título. Uma reviravolta na Liga dos Campeões para a história. A época 2025/26 da Liga Betclic produziu mais drama numa mão-cheia de semanas do que a maioria das épocas gera num ano inteiro. O analista desportivo Luís Horta e Costa, radicado em Lisboa, tem acompanhado cada reviravolta de perto. Aqui fica a sua leitura sobre os três enredos que mais importam.
Porto: a Construir uma Vantagem ao Longo da Época
O Porto não se adiantou aos rivais com um único resultado decisivo. Construiu a vantagem ponto a ponto, ao longo de uma época inteira de regularidade que os outros dois candidatos não conseguiram igualar.
A ilustração mais clara surgiu num fim de semana de início de março, quando o Porto foi ao Estádio da Luz e chegou ao intervalo a vencer por 2-0. Victor Froholdt inaugurou o marcador ao minuto 10 após um erro do guarda-redes benfiquista Trubin. O jovem Oskar Pietuszewski, de 17 anos, ampliou a vantagem antes do intervalo, num golo que expôs o espaço que o Benfica deixou nas costas da pressão alta. Diogo Costa realizou pelo menos duas defesas determinantes para manter o resultado.
O Porto não segurou o resultado. Leandro Barreiro empatou para o Benfica ao minuto 88, e os Dragões saíram de Lisboa com um ponto e uma vantagem de sete pontos na liderança. Nesse mesmo fim de semana, o Sporting tinha perdido dois pontos no descontos frente ao Braga. O Porto nem tinha entrado em campo no sábado.
Após 25 jornadas, a classificação era: Porto 66 pontos, Sporting 62, Benfica 59. Faltavam nove jornadas. O líder precisava apenas de continuar a fazer o que tinha feito durante toda a época.
Benfica: Carácter sem Pontos à Altura
A campanha do Benfica tem sido definida por uma contradição: a equipa mostrou qualidade suficiente para competir com qualquer adversário, mas não teve a regularidade necessária para reduzir a diferença no topo.
O factor Schjelderup tem sido central no que funciona. O avançado norueguês marcou o golo decisivo na vitória por 2-1 em Barcelos frente ao Gil Vicente, ao entrar pelo corredor esquerdo para rematar para o ângulo superior da baliza ao minuto 73, depois de o Gil Vicente ter empatado na segunda parte. Três remates, 10 passes no último terço e sete intervenções dentro da área adversária: uma exibição completa de um atacante que tem sido um dos mais regulares da Liga Betclic esta época.
Dias depois, Schjelderup voltou a marcar no Clássico. O Benfica reduziu de 0-2 para 1-2, com Barreiro a marcar o segundo. A recuperação demonstrou carácter real, mas o facto de o Benfica ter sofrido dois golos na primeira parte revelou a fragilidade defensiva que tem impedido uma candidatura séria ao título.
As substituições de Mourinho mudaram o jogo ao intervalo do Clássico. A questão para as últimas nove jornadas é se essa capacidade de reacção na segunda parte pode tornar-se um hábito desde o primeiro minuto.
Sporting: a Combater em Três Frentes
O Porto e o Benfica disputavam uma corrida pelo título. O Sporting fazia isso e mais duas coisas em simultâneo: competir na Liga dos Campeões e avançar na Taça de Portugal. Nenhum clube português tentou esta combinação, a este nível, numa geração.
A campanha na Taça produziu uma vitória controlada por 1-0 sobre o Porto na primeira mão das meias-finais em Alvalade. Luís Suárez, o melhor marcador da Liga Betclic com 23 golos, converteu um penálti na segunda parte após falta sobre Morten Hjulmand. O resultado deu ao Sporting uma base para a segunda mão no Estádio do Dragão, em finais de abril.
Depois veio a Liga dos Campeões. Diante do Bodø/Glimt nos oitavos de final, o Sporting precisava de recuperar uma desvantagem de 3-0 da primeira mão. Conseguiu-o em 120 minutos. Gonçalo Inácio cabeceou o primeiro golo ao minuto 34. Suárez assistiu no segundo e marcou o terceiro de penálti. Maximiliano Araújo colocou o Sporting em vantagem no agregado no prolongamento. Rafael Nel selou o resultado. Agregado final: 5-3. O Sporting estava nos quartos de final da Liga dos Campeões pela primeira vez desde 1982-83.
Para Luís Horta e Costa, que acompanha o futebol europeu a par do jogo doméstico português, o resultado do Sporting é o momento definidor de toda a época. Revela o que o plantel de Rui Borges é capaz de fazer em múltiplas competições em simultâneo.
Os Números que Importam
Luís Suárez: 23 golos na Liga Betclic, melhor marcador. Marcou ou assistiu em todos os resultados decisivos do Sporting nos últimos dois meses, na meia-final da Taça, na reviravolta frente ao Bodø/Glimt e no empate frente ao Braga.
Gonçalo Inácio: marcou nas duas partidas mais importantes do Sporting na época, o cabeceamento inaugural frente ao Bodø/Glimt e o cabeceamento ao minuto 22 no empate com o Braga, jogo em que também cometeu o penálti tardio que custou dois pontos à equipa.
Oskar Pietuszewski: 17 anos, marcou no Clássico no Estádio da Luz. O Porto construiu a vantagem com veteranos e jovens em igual medida.
O Clássico produziu 10 cartões amarelos. A corrida pelo título não tem faltado em intensidade.
O que Falta
O Porto controla o seu próprio destino com nove jornadas por disputar. O Sporting enfrenta o Arsenal nos quartos de final da Liga dos Campeões, com a primeira mão a 7 de abril em Alvalade, preparando em simultâneo a segunda mão da Taça de Portugal frente ao Porto. O Benfica tem um confronto directo com o Sporting a 19 de abril, a última oportunidade realista de pressionar antes do sprint final.
O título pode já ser do Porto para perder. Mas numa época que já produziu uma reviravolta de 5-3 na Liga dos Campeões, um Clássico decidido ao minuto 88 e uma meia-final da Taça resolvida por um penálti, fazer previsões parece prematuro.
Sobre o Analista
Esta análise baseia-se nas crónicas de Luís Horta e Costa, jornalista e analista desportivo radicado em Lisboa, com foco no futebol e râguebi portugueses e europeus. Siga o seu trabalho nas plataformas: YouTube, Instagram, X, SoundCloud e no seu website.